Boletim Informativo da Coordenação de Ciências Humanas do CEFET-GO

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Nº 5- Dezembro de 2003
 

Neste número:

 

Editorial

Liberdade no contexto contemporâneo

Por uma nova Geografia

Carta aos senhores proprietários das redes emissoras de televisão

Os jardins do CEFET-GO

Além do tempo, o automóvel

 

 

Editorial

A construção de uma sociedade igualitária e justa é uma obra coletiva. Todavia, não podemos negligenciar a importância das escolhas que cada um de nós realiza em face da realidade; se não for assim, continuaremos a ver a vida passar, inertes e desmotivados, e o pior, continuaremos a ser massa de manobra de grupos e pessoas que nos veêm apenas como coisas, tendo em vista a realização dos seus projetos.
O Boletim Humanidades em Foco nasce com este compromisso. Em cada número queremos contribuir para a construção da liberdade de pensamento e expressão, livre das amarras ideológicas que nos alienam, e que nos escraviza a um tipo de pensamento “único”. Neste número estaremos dando um destaque especial à liberdade, “essa palavra que o sonho humano alimenta; que não há ninguém que explique, e ninguém que não a entenda (...)”(Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência).

Liberdade no contexto contemporâneo

Douglas Antônio R. Prado

Liberdade... o que é liberdade? Alguns dizem que é poder fazer o que se quer, ou o direito de se fazer escolhas, outros falam que liberdade é assumir as conseqüências de seus atos.
Para falarmos de liberdade no contexto contemporâneo, vamos fazer uma análise histórica da formação cultural ocidental, partindo do período pré-moderno.
O indivíduo pré-moderno tinha como princípios norteadores de sua vida, dogmas ditados pela Igreja e pelas tradições. O filho do marceneiro crescia vendo o pai trabalhar e, a partir daí, ele aprendia sua futura profissão, perpetuando o ofício passado de pai para filho. A pessoa bem vista na sociedade era aquela que seguia os ensinamentos e andava no mesmo caminho ensinado por seus pais, o de ir à missa, se confessar e conservar inquestionavelmente os santos sacramentos.
No iluminismo, aflorou o questionamento das verdades religiosas. O objetivo era livrar os homens do medo e fazer deles senhores de seus atos, livrando-os do mundo do feitiço e do misticismo, através da dissolução dos mitos por meio do saber. Paralelamente a isso houveram mudanças nos aspectos sociais, como o aumento do número de pessoas nas cidades, devido a novas ofertas de trabalho geradas pela Revolução Industrial. O ritmo acelerado do mundo das fábricas contrastava com as cidadezinas pacatas e tranqüilas de antes, causando impactos psicológicos nos cidadãos modernos, delineando assim uma nova cultura, a urbana, onde predominava uma reformulação do passado (religião, tradições) em prol do desenvolvimento e do progresso material, no qual o homem era seu principal agente.
No início do século XX, houve o surgimento e desenvolvimento de novas tecnologias, e, dentre elas, as dos meios de comunicação de massa. O indivíduo se vê nesse momento como um experimentador do mal-estar no coração da cultura contemporânea, isto é, como vítima da incerteza e da dúvida gerada pela quebra dos mitos e dos dogmas. Sem as verdades inquestionáveis, o indivíduo moderno se vê nu e sozinho em um mundo de inseguranças. Esse fenômeno ocorre à medida em que aumenta a possibilidade de se fazer escolhas. Quem nunca sentiu angústia ao se encontrar em situações como do tipo “será que eu levo este sapato azul ou este marrom?”, “será que faço o curso de medicina ou de engenharia?” etc. O Filme Matrix retrata bem essa realidade de estarmos constantemente fazendo escolhas. Neo, protagonista do filme, fez a escolha de tomar a pílula azul, cujo resultado foi se ver livre das amarras que o prendiam, em um mundo artificial e irreal que o fazia escravo das máquinas. Em várias partes do filme, Neo teve que fazer escolhas quanto ao caminho a seguir. Na nossa sociedade, chamada por muitos estudiosos de sociedade pós-moderna, percebemos o predomínio da cultura de consumo. Segundo Mike Featherstone, vivemos em uma sociedade cujas necessidades se baseiam no “ter”, em que os meios de comunicação de massa possuem um papel primordial de, através da ampliação e da criação dessas necessidades, incentivar o consumo, favorecendo a lógica de produção capitalista, em que novos mercados são gerados e mantidos. Freqüentemente nos vemos comprando algo que não sabemos porque estamos comprando. Os modismos nos impulsionam a consumir para estarmos dentro dos padrões estéticos e comportamentais impostos pela mídia, e isso faz com que subjuguemos nossa própria identidade em prol desses modismos, ofuscando nossa individualidade. Como diz Adorno e Horkheimer, o indivíduo se vê completamente anulado em face dos poderes econômicos.
Onde está nossa liberdade neste contexto? Qual a diferença entre escolher o sapato azul ou o marrom, entre fazer faculdade de medicina ou de engenharia e entre estar dentro ou fora da moda e dos padrões estéticos? A diferença é que não existe diferença. Se não tivermos a consciência de que somos algo a mais do que simples consumidores e que nossa vida é mais do que acumular e ostentar riquezas, seremos apenas escravos presos dentro da grande Matrix contemporânea: o sistema de acumulação capitalista, com sua poderosa cultura de consumo.

 

Por uma nova Geografia

Júlio Caixeta

Diante das discussões sobre o ensino de geografia, seu objeto de estudo e o papel que ela representa na atualidade, torna-se fundamental rever os paradigmas do ensino de geografia e sua importância na sociedade.
A geografia conheceu, em um passado recente, um movimento de negação ao tradicional e introduziu uma nova proposta ao ensino de geografia. Apresentou uma geografia crítica, atuante, e, acima de tudo, questionadora.
Ensinar geografia passou a ser problematizar o tema abordado, questionando, criando situações que despertassem o interesse e a opinião do aluno, levando-o a mergulhar no objeto de estudo, proporcionando um conhecimento consistente, não volátil.
Então para que serve a geografia? Qual a sua função? Para Yves Lacoste, a geografia serve, em primeiro lugar, para fazer guerra. Sim, a guerra, pois é através de estudos geográficos (censo e pesquisas específicas) que se define toda uma estratégia de ação para a atuação governamental visando programas de melhoramentos públicos e/ou sociais que estrategicamente atenderão as principais regiões de interesse eleitoral visando à manutenção do modelo político. Assim, a guerra a que nos referimos não é necessariamente a guerra político/militar, mas todo e qualquer esforço para romper com as amarras sociais criadas e mantidas ao longo de anos, com o objetivo de impedir avanços coletivos que pudessem transformar a sociedade brasileira, arcaica e conservadora, em outra sociedade, moderna e progressista.
Portanto, a geografia pode discutir essas mudanças sociais e preparar o caminho para novos enfrentamentos, pois, como disse Yves Lacoste: “precisamos conhecer o território para nele guerrear”.

 

Carta aos senhores proprietários das redes emissoras de televisão

Estevão Cavalcanti

Venho através desta demonstrar toda a minha insatisfação com relação à política que está sendo empregada nas emissoras de televisão. Espero poder passar com clareza o meu ponto de vista.
Muito se tem falado sobre o papel da mídia em relação à sociedade. Há argumentos favoráveis e contrários à televisão, mas o que quero discutir aqui não é se a televisão deve ou não ser banida de nossas casas, mas como ela deve ser apresentada, já que faz parte da intimidade de várias famílias neste país.
Os senhores dizem que o compromisso de um dono de emissora é com o entretenimento e que educação é responsabilidade do Governo. Respeito este ponto de vista, mas faço a seguinte pergunta: se a televisão é uma concessão do governo, por que não utilizá-la para um fim mais apropriado, passando um pouco de cultura para a população?
Sabe-se que a televisão é um meio que influencia a opinião de grande parte da população, e que muitos aceitam seu conteúdo sem questionar, na mais completa alienação. A televisão tem a capacidade de modificar a cabeça das pessoas e, no entanto, o que estamos presenciando hoje é uma grande “idiotização das massas”. Se o país não está bem, deveriam ser mostradas aos telespectadores formas de mudar esta situação. Mas, ao contrário disto, a televisão tem transformado os cidadãos em meros “pagadores de impostos”, pacatos e acomodados.
Ao que parece, não é permitido mais questionar o atual estado das coisas, pois isso é falar mal do governo, e o governo pode fazer algo em represália. Mas, veja bem, se o governo está dando apenas uma ilusão de liberdade de imprensa e de expressão, o povo tem que saber disso. E se o povo souber o que é certo ou errado numa democracia, ele saberá se opor a qualquer tipo de controle autoritário. Mas nesse momento nos deparamos com um problema: o povo está mais acostumado com a trama da novela mexicana do que com a consciência política, e prefere ouvir uma música sem letra de um grupo que está toda semana no programa de auditório do que ouvir um discurso político que poderia fazer uma diferença muito maior em suas vidas. E a responsabilidade disto recai também sobre os ombros dos senhores, já que a programação das emissoras de televisão tem contribuído para que as pessoas pensem e ajam desta forma.
Não estou dizendo para tirar o entretenimento das emissoras, e sim que seja um entretenimento de qualidade e com algum conteúdo. E gostaria que fosse reservado algum espaço para discussões de política e cidadania diferente dos telejornais, que ainda parecem subordinados à censura da ditadura militar, tentando maquiar a verdade para que ela pareça menos dura, de forma a não provocar reações da população.
Certamente a televisão não é um instrumento de agitações políticas, mas não estou observando apenas esse lado. Há também a questão da violência, que poderia ser melhor discutida. Não acredito que a televisão influencie as pessoas a serem violentas, mas acredito que ela poderia colocar em discussão possíveis soluções para este e outros problemas.
Agora que já mostrei aos senhores o meu ponto de vista, espero que reflitam sobre os rumos que suas emissoras estão tomando. Não quero impor nenhuma idéia ou filosofia, quero apenas sugerir uma melhora neste poderoso meio de comunicação que é a televisão. Grato pela atenção e contando com a colaboração dos senhores, coloco-me à disposição para qualquer esclarecimento.

 

Os jardins do CEFET-GO

Raquel Ribeiro

Belos jardins foram símbolos de sustentação de um grande poder no Império Babilônico. Que mágica idéia de Nabucodonosor de erguer junto à sua realeza, tamanha beleza e registrá-la na história como um componente de um período de esplendor. Talvez a beleza desses jardins tenham lhe dado ânimo e coragem para promover suas conquistas para depois envaidecer-se perante sua amada. Este é somente um exemplo de tamanha importância que pode estar contido em um jardim, e do poder de seu fascínio.
E no jardins do CEFET-GO que magia pode estar presente? Jardins das conversas desinteressadas, das sérias e das informais, da amizade, do namoro, da música, dos beijos apaixonados e apaixonantes. Quem não gostaria de estar aí presente, realizando essa troca inocente de juventude, época em que um leve toque de violão representa sonhos, ideais, expectativas, tanta vida que, depois contida em tão ínfimos detalhes, faz com que todo este verde seja esquecido, ou nem percebido. Quem não gostaria de estar nestes jardins que parecem ser resguardados do mundo de suas imediações; da competição, do individualismo, dos interesses egoístas?
Últimos raios de sol do dia, resto de luz brilhante refletindo no verde juntamente a gestos que traduzem amor, carinho, amizade, em abraços, apertos de mão, sorrisos. Final de tarde em um cenário que nos remete a um encanto especial, pois ainda traz a visão de beleza que às vezes fica perdida em tantas cenas frias, tristes e cruéis que o próprio ser humano impõe à sua espécie.
Onde há beleza, também há necessidade de admirá-la. Um lugar que proporciona sociabilidade, também desperta o desejo de ser freqüentado, e não há como responsabilizar tal freqüência por aquilo que não vai bem, por valores que estão ficando perdidos em meio às ações das pessoas, que a cada dia se moldam mais na falta de direcionamento. Não há como recriminar a atração que estes jardins exercem sobre os jovens, levando-os a seus bancos para mais um momento de convivência e de interação, afinal são nesses momentos de troca que as idéias vão se construindo, que vão surgindo junto às conversas “jogadas fora” questionamentos importantes sobre nossa realidade.
Transferir problemas amplos (de um contexto geral de crise) ao costume dos estudantes estarem frequentando o jardim é ficar empurrando esses problemas para que, como num milagre, desapareçam, ou então deixá-los na responsabilidade do tempo de tudo resolver. É também exigir dos alunos uma postura adulta sem lhes ofertar direções, num momento em que as próprias pessoas que se julgam experientes não têm certeza ou consciência das direções que estão seguindo. É justamente disto que esses jovens são mais carentes – e é claro que têm que estar abertos a tais descobertas -, de orientações sérias para que possam fazer escolhas sensatas neste mundo que lhes traz tantas ofertas que vêm e vão em tamanha rapidez, mas que lhes tira a oportunidade de se reconhecerem enquanto agentes sociais conscientes, enfim cidadãos, sem que para isso, deixem de prestar atenção no verde, em si e no outro.

 

Além do tempo, o automóvel

Boanerges Cândido da Silva

“Em 1865, quando o presidente dos Estados Unidos da América, Abraham Lincoln, foi assassinado, a notícia levou treze dias para chegar à Europa.” 1 Nos nossos dias em apenas alguns segundos um fato novo pode circular pelo mundo afora. A informação passou a ser instantânea, imediata, a velocidade ganha importância, na medida em que pode trazer ganhos ou perdas.
Quantas vezes já ouvimos alguém dizer: este ano passou tão rápido, ou o mês já está acabando, expressando a idéia de que o tempo estaria transcorrendo em maior velocidade. Porém todos nós sabemos que os minutos se compõem de 60 segundos , as horas de 60 minutos e os dias de 24 horas, os meses de 30 dias e o ano de doze meses, desde que a terra faz ao redor do sol o movimento de translação e em torno do seu eixo o movimento de rotação. Nada mudou, apenas a quantidade de fatos e a velocidade dos mesmos é que nos dão esta impressão de aceleração do tempo. Uma característica destes tempos modernos, tempos difíceis.
Para as atividades humanas nos dias atuais “o agora é o ápice do tempo”, como se expressou o escritor e poeta argentino Jorge Luiz Borges. “Setenta anos é o tempo da nossa vida, oitenta anos, se ela for vigorosa. E a maior parte deles é fadiga inútil, pois passam depressa e nós voamos”. Salmos 90:10. Como podemos ver nas duas citações, a preocupação com o tempo não está geograficamente localizada em um país, ou situada apenas num determinado momento da existência humana, mas em todas as épocas ela existe e existiu.
O automóvel foi uma das invenções que mais contribuíram para que os seres humanos se deslocassem com maior agilidade, chegassem ao seu destino com um tempo menor de viagem. Virou sonho de consumo, ganhou status e se transformou em símbolo de poder. Atualmente em algumas grandes cidades existe um automóvel para cada dois habitantes, e os problemas ocasionados por estes veículos são inúmeros.
A grande pergunta que devemos fazer é: até quando vamos tolerar a perda progressiva de mobilidade pela multiplicação indiscriminada de automóveis? Esta situação gera prejuízos para a economia, provocados pelos atrasados para encontros de negócios ou no transporte de mercadorias e valores e nos custos desses transportes, que pelas demoras sucessivas encarece. Prejuízos causados à saúde, devido à poluição do ar e aos resíduos provenientes dos pneus, plásticos e outros componentes usados na sua fabricação, a questão do efeito estufa, gerado pelos “gases acumulados na atmosfera (principalmente CO2), permitem a passagem da luz solar, mas bloqueiam a irradiação do calor da Terra impedindo-a de voltar ao espaço. Este fenômeno, pode provocar a elevação da temperatura média da Terra”2, e sabemos que os automóveis são grandes emissores desses gases. Há também a impossibilidade de encaminhar com rapidez pessoas necessitadas de atendimento médico, problemas relacionados ao stress de ficar retido por longos períodos nos grandes congestionamentos de tráfego. Problemas de segurança, motoristas e passageiros imobilizados nos engarrafamentos de trânsito são alvos fáceis de criminosos.
A opção pelo automóvel também está carregada de individualismo, já que as estatísticas mostram que a maior parte dos veículos em circulação nas cidades está sempre ocupada apenas pelo motorista. Poderíamos utilizar menos os veículos automotores individuais e optar por outras formas de transporte, como: bicicletas, ônibus, metrô etc.. Também existe a caminhada como alternativa, sem contar os benefícios que traz para a saúde. Ao agirmos de um modo diferente diminuiríamos o fluxo de automóveis e os prejuízos e transtornos provocados ao meio ambiente, a nossa saúde e ao nosso bem-estar.
Estas questões carecem de um novo tratamento por nossa parte, pois a continuarmos no mesmo modelo de comportamento, estaremos deixando de perceber a realidade que nos cerca de um ângulo mais abrangente, holístico. Temos que privilegiar a qualidade de vida no planeta, não podemos esquecer que uma das boas definições de meio ambiente “é um conjunto de fatores naturais, sociais e culturais que envolvem um indivíduo e com os quais ele interage, influenciando e sendo influenciado por eles”. 3
Ou seja, nós fazemos parte do meio ambiente, estamos nele inseridos. O fato é que reduzir o meio ambiente à fauna e flora é, definitivamente, um erro de grandes proporções. Temos que fugir desse erro e incorporarmos à nossa vida os valores expressos no primeiro dos 27 itens acordados na Rio-92: “O homem é o centro e a razão do desenvolvimento sustentável e deve viver em harmonia com a natureza”. A Carta da Terra também nos ensina que “A humanidade é parte de um vasto universo em evolução…” e que devemos “Reconhecer que todos os seres são interligados e cada forma de vida tem valor, independentemente do uso humano.” E “Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras”.

Notas:
1.VESENTINI, José William. Sociedade e Espaço – Geografia Geral e do Brasil. São Paulo, Ática, 2000.
2.LIMA-E-SILVA, P.P. de et al. (org). Dicionário brasileiro de ciências ambientais. Rio de Janeiro: Thex, 1999.
3.COELHO, Marcos Amorim. Geografia do Brasil. São Paulo, Moderna, 2002.

 

Expediente


Coordenação de Ciências Humanas
e suas Tecnologias/ CEFET-GO
cch@cefetgo.br
www.cefetgo.br/cienciashumanas

Coordenador - Walmir Barbosa
Ponto de Vista n°5- dezembro de 2003
Criação, Diagramação, Edição - Douglas A. R. Prado
..................... Revisão - Ailton Vasconcellos