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Neste
número:
Editorial
Novas
perspectivas da comunicação nas redes digitais
Atos
subversivos
Lendo
o mundo
O
Brasil e as fontes de energia
De
quem é a poesia?
Editorial
Acompanhando
a retomada das atividades acadêmicas do CEFET-GO, estamos lançando
mais um número do Boletim Informativo Humanidades em Foco. O tema
central deste número é a liberdade.
A Liberdade não pode ser compreendida de um ponto de vista superficial.
No justo momento em que o voyeurismo, a banalidade, o individualismo e
a competição são consagrados por meio de uma pedagogia
de massificação e de decomposição de valores
sociais fundados na ética e na justiça -a exemplo de programas
reality shows como o Big Brother Brasil-, é necessário ultrapassar
os estreitos limites a que o senso comum, sob a concepção
liberal de mundo, submeteu a liberdade.
Liberdade somente pode ser entendida (e conquistada) enquanto capacidade
de leitura (crítica) da realidade, de contestação
de uma ordem (injusta) estabelecida e de auto determinação
dos sujeitos sociais (individuais e coletivos). A consciência de
que estamos subjugados a um sistema que nos faz prisioneiros, não
traduz propriamente o que é a liberdade, mas é sem dúvida
um momento importante da caminhada em sua conquista.
Estas referências são necessárias para apreendermos
e transformarmos micro e macro estruturas sociais, a exemplo das relações
de poder da sociedade brasileira em todas as suas dimensões, até
mesmo numa instituição de ensino como o CEFET-GO. “Navegar
é preciso”, sempre...!
Novas
Perspectivas da Comunicação nas Redes Digitais*
Profª. Gilda Guimarães
Em palestra promovida pela revista eletrônica
Humanidades em Foco, o professor Dr Júlio Afonso, apresentou à
comunidade do CEFET-GO uma síntese dos seus estudos e pesquisas
desenvolvidos nos anos noventa, como parte do seu trabalho de doutoramento.
O pesquisador ressaltou que em 1995, período de realização
da pesquisa, vivíamos o boom da informática e o auge da
crença nas suas possibilidades de democratização
da comunicação, através das novas tecnologias das
redes digitais.
Esse otimismo acrítico, que vê na tecnologia possibilidades
de uma efetiva democratização da informação
e do conhecimento, apóia-se na suposta autonomia da técnica
e na promessa apressada do poder da tecnologia transformar a sociedade.
Passado esse momento ufanista questiona-se o caráter, o conteúdo
e a real interação do usuário na rede.
A partir de 1998 a Internet entra na sua fase comercial no Brasil, submetendo-se
à lógica da audiência e reposicionando a mídia
enquanto mercadoria. A submissão da rede à lógica
da audiência obedece à dinâmica do mercado e determina
o nivelamento por baixo do conteúdo veiculado nas informações,
o que compromete e empobrece a capacidade de reflexão e do verdadeiro
debate.
A propaganda que invade a rede e a fragmentação das informações,
determinada pelo achatamento do conteúdo destas, pela focalização
na linguagem de inter-texto, pela prioridade do jogo de imagens e movimentos,
pela velocidade com que se intercalam as imagens e notícias, levam
à espetacularização do conhecimento e da informação.
Essa espetacularização promove apenas a “sensação”
de conhecer e interagir, daí a expressão navegar, surfar,
que sugere permanecer na superfície.
Outro aspecto abordado diz respeito à acessibilidade e a possibilidade
de sociabilidade em termos globais, através do contato com o outro,
com as diferenças. Segundo o pesquisador a sociabilidade na Internet
tende a aproximar os indivíduos a partir do que previamente se
buscou. Dessa forma, o contato com o outro, que no final identifica-se
com você mesmo, revela uma sociabilidade narcisa e, ao mesmo tempo,
fantasmagórica já que não se sabe exatamente se o
outro é o que afirma ser (sexo, idade, origem, etc.). A caracterização
dos mundos virtuais revela, ainda, a tendência à deserção
do mundo real, fenomênico, o que faz com que a leitura crítica
dos meios de comunicação seja necessária nas escolas
desde cedo.
*(palestra proferida pelo Professor Júlio Afonso, Doutor em Comunicação
pela UFRJ, em 26/11/2003 a convite da revista eletrônica Humanidades
em Foco.)
Atos
subversivos
Profª. Raquel Ribeiro
Subversão – ação de subverter (se) / rebeldia,
insurreição
Subverter – destruir, arruinar/desorganizar/perverter/revolucionar/revolver,
voltar de baixo para cima.*
“Os primeiros meses pós-golpe ficaram marcados pela detenção
de aproximadamente 50 mil pessoas. Os militares realizaram uma “operação
pente-fino”: de rua em rua, de casa em casa, procuravam suspeitos,
livros, documentos, qualquer coisa que ligasse os acusados ao governo
anterior ou à “subversão”. Não se prendiam
“culpados”, mas todos os que não podiam provar inocência.
Poucos líderes sindicais e estudantis escaparam da repressão.**
A palavra subversão foi amplamente utilizada e comentada dos anos
60 aos 80, durante o regime militar no Brasil e também nos outros
países da América Latina, e mesmo antes dos anos 60, na
referência aos militantes dos movimentos sindicais ou do movimento
comunista em suas diversas facções. O certo é que
em alguns momentos da história esta palavra ganhou tamanha força
que se tornou tão ameaçadora quanto o “bicho-papão”,
aliás, em suas essências até se confundiam.
Quem eram os subversivos? Aqueles que acreditavam em igualdade de direitos
(não a igualdade dos discursos liberais), em melhor distribuição
de rendas e riquezas, em liberdade de escolha e expressão, em ter
o direito de exercer uma cidadania participativa e etc., etc., etc...
De pervertido parece não ter nada nestes princípios. De
destruidor? Sim. Ameaçavam acabar com uma ordem sócio-econômica
que foi se tornando cada vez mais excludente, cruel e desumana. Se tomarmos
o termo pela lógica da definição, nada parece mais
contraditório do que o receio de desorganizar uma ordem que em
si já traz tantas desordens: fome, pobreza, desemprego, abandono,
exclusão.
A idéia de uma revolução popular armada causava tamanho
terror aos dirigentes políticos e aos grupos burgueses dominantes,
que usavam de qualquer método para coibí-la, até
mesmo as mais cruéis e brutais torturas. Mas mesmo para aqueles
jovens rebeldes, não seria fácil realizar uma revolução
com ideal de igualdade, pois esta implica no fim de qualquer prática
autoritária. Uma revolução assim não é
apenas um ato de rebeldia manifesta contra o “sistema” ou
uma insurreição, um levante no qual o poder é tomado
por um grupo em detrimento de outro, mas sim uma profunda transformação
de práticas sociais, políticas, econômicas e mais
ainda, dos valores humanos.
Dos anos 60 aos 80, a dialética da subversão desconstruiu
a intenção de justiça social, construiu um modelo
de democracia fundamentada no silêncio, na submissão e na
omissão e fortaleceu ainda mais a ditadura do capital. Enquanto
conceitos como subversão e autoritarismo estiverem sendo mal interpretados
ou desconhecidos em suas essências, um pequeno grupo continuará
mantendo o domínio sobre as maiorias utilizando justificativas
inconsistentes e alienantes e práticas autoritárias serão
mantidas – mesmo que com roupagens diferentes. Tais práticas
são reforçadas por meio da apropriação indevida
do termo democracia e da desconsideração da ampla e complexa
diversidade de idéias, costumes, identidades e culturas, reforçando
sempre a exclusão.
Então o que aconteceu com as pessoas que personificavam a subversão
naqueles tempos que parecem ter emudecido hoje? E hoje não há
nada com o que subverter? E o que aconteceram com os projetos de mudanças
econômicas e sociais? Realmente parece que o mito da plena liberdade
venceu a intenção da luta e o conformismo refletido em uma
ordem em que há´uma diversificação partidária
no poder (esquerdas, centros, direitas) mistifica a luta social, reforçando
a idéia de que hoje a participação dos cidadãos
nestas lutas e conquistas está completa.
Talvez este fosse o momento de retomar o termo e praticar atos subversivos
contra valores que se enraizaram na desonestidade, no autoritarismo, na
corrupção e na falta de ética.
*AURORA, Antônio Soares. Minidicionário Soares Amora da
língua portuguesa. 6.ed. São Paulo, Saraiva, 1999
** CHAVANATO, Júlio José. O golpe de 64 e a ditadora militar.
3. Ed. São Paulo, Moderna, 1994. Coleção Polêmica.
Lendo
o mundo
Douglas
A. R. Prado
Você sabe ler? Espera aí, deve estar pensando
que a resposta é muito óbvia, é claro que você
sabe ler, não é mesmo? Se não soubesse não
estaria lendo este texto! Mas afinal, o que é leitura?
O ato de ler está usualmente relacionado com a escrita, mas existem
outros tipos de leitura, basta darmos atenção ao que acontece
a nossa volta e conseguir ligar esses sinais a uma experiência,
a uma fantasia ou a uma necessidade nossa. Em primeiro lugar, temos que
compreender que o significado de leitura vai além do simples conceito
de decifrar sinais gráficos. O ato de ler é uma atividade
que significa interiorizar uma informação que é exterior
ao leitor, por exemplo, quando assistimos a um filme estamos lendo, isto
porque estamos decodificando uma mensagem que nos é transmitida,
e codificando-a novamente de forma a assimilarmos e compararmos com conceitos
e informações já apreendidas anteriormente. Outro
significado de leitura pode ser compreender e interpretar textos. De maneira
simplificada, texto seria um conjunto de informações que
percebemos de três maneiras: sensorialmente, emocionalmente e racionalmente.
Desde o nosso nascimento começamos a compreender e a dar sentido
ao que nos cerca, isto porque aprendemos por meio das experiências
de confronto com nós mesmos e com o mundo. Aprendemos a ler lendo
e vivendo, a partir do contexto social ao qual estamos inseridos. O importante
é sabermos que o ato de ler sempre está ligado com a interação
entre o contexto social - que é contraditório e conflituoso
socialmente – e o indivíduo.
O nível de domínio da leitura determina o tipo de leitor
que você é, e se sabe realmente ler. Segundo Nelly Novaes
Coelho, o leitor iniciante é aquele que está em fase de
aprendizagem da leitura, período este em que ocorre o processo
de sociabilização e de racionalização da realidade
com a qual a criança entra em contato. O leitor em processo tem
o domínio relativo do mecanismo da leitura e da agudização
do interesse pelo conhecimento das coisas, com o pensamento lógico
se organizando em formas concretas que permitem as operações
mentais. Já o leitor fluente se caracteriza pela consolidação
do domínio da leitura e da compreensão do mundo expresso
por meio do texto, ou da realidade que é apresentada ao indivíduo.
Finalmente, o leitor crítico é aquele que tem o total domínio
da leitura, incluindo a da linguagem escrita, além de ter a capacidade
de reflexão em maior profundidade, o que lhe permite ir mais fundo
no texto e descobrir a visão de mundo ali presente, compreendendo
as ideologias e as motivações sociais que levaram à
construção do discurso.
Sabe-se que o conceito de leitura em nível do senso comum está
ligado à separação entre o trabalho intelectual e
o trabalho manual, em que apenas os “letrados”, aqueles que
supostamente seriam capazes de ler livros, seriam os únicos que
teriam o “direito” de dar sentido ao mundo, restando aos demais
a submissão. Muitos educadores apregoam a necessidade da constituição
do “hábito de ler”, mas os livros escolares geralmente
transmitem uma visão de mundo repleta de (pré)-conceitos
sociais (ou falsa consciência), dando ao conceito de leitura um
sentido restrito e puramente formal.
Ampliar a noção de leitura pressupõe transformações
na visão de mundo em geral e na cultura em particular, isto porque
ela é um processo de compreensão de expressões formais
e simbólicas, que geralmente estão em um contexto sócio-cultural
muito amplo, indo para além daquele em que o leitor vive imediatamente.
A função do educador é o de ampliar a capacidade
de leitura crítica de seus educandos, criando condições
para que os mesmos realizem aprendizagens a partir de necessidades e fantasias
individuais e coletivas, sob as demandas e exigências que a realidade
lhes apresenta, permitindo dessa forma uma ação transformadora
sobre o mundo. Assim, poderá ser possível pensamento e ação
livres de idéias pré concebidas e “engessadas”.
Somente por meio de uma leitura crítico-transformadora do mundo
poderemos alcançar liberdade, visto que a mesma não pode
ser alcançada fora de um processo de desalienação
individual e coletiva!
O
Brasil e as Fontes de Energia
Prof.
Boanerges Candido Da Silva
O panorama energético mundial é preocupante. O consumo cada
vez maior e as reservas se esgotando ao longo dos anos, mostram-nos a
necessidade de se buscar uma solução. Os custos da energia
são cada vez maiores, onerando os transportes e o preço
final dos produtos. Os avanços técnicos e o aumento da escala
não foram capazes de reduzir os preços dos produtos energéticos,
nem de criar fontes alternativas de energia.
A pergunta que se faz é como evitar uma crise de energia, que poderia
inviabilizar o modelo atual de vida, principalmente das sociedades ocidentais.
No Brasil o principal meio de transporte é o rodoviário,
responsável, por cerca de 80% dos deslocamentos de cargos. Esta
situação coloca o país numa posição
de dependência em relação ao petróleo, fonte
de energia que, segundo os especialistas, é a que se encontra mais
próxima do fim, os atuais estoques seriam extinto em cerca de 50
anos.
A negligência com o desenvolvimento das hidrovias, uma alternativa
viável de transporte, é tanta, que algumas rodovias federais
foram construídos paralelas a importantes cursos d’água,
como a transamasônica.
Com as ferrovias a situação não é diferente.
Desde 1956, com a posse de Juscelino Kubistchek na presidência do
Brasil, optou-se pelo transporte rodoviário, priorizando a indústria
automobilística, como força motora do desenvolvimento nacional.
Esta situação levou ao abandono das ferrovias que praticamente
desapareceram e as poucas em operação, são obsoletas.
Com os transportes urbanos houve o mesmo descaso, saímos dos bondes,
dos ônibus elétricos e dos trens urbanos e suburbanos, para
os veículos movidos a óleo diesel, que apresentavam serviços
de baixa qualidade e eficiência, levando os proprietários
de automóveis, optassem por este meio extremamente individualista.
O modelo brasileiro nos leva a refletir e a nos preocupar com o futuro.
O que será do nosso trans porte? Como nos livraremos desta dependência
dos combustíveis fósseis? Será possível em
um curto espaço de tempo criarmos uma alternativa?
Pelo menos tivemos uma boa experiência, mas que já foi praticamente
abandonada, o PROÁLCOOL, um combustível renovável
e com amplas possibilidades de sucesso nos transportes individuais. Outra
tentativa é o consumo de gás natural, que vem sendo implantado
nos Estado do Rio de Janeiro e São Paulo com bons resultados.
Devemos ficar atentos e nos preocuparmos, pois ainda não há
uma alternativa testada e aprovada, e o nosso álcool e o nosso
gás podem ser a boa notícia que tanto nos agradará.
De
quem é a poesia?
Profª.
Raquel Ribeiro
Essa poesia não tem dono.
Composições de letras em uma mão trêmula
que não garante mais nenhuma firmeza
ou ao menos certeza.
Pode ser que pareça
que algumas letras
ainda componham coerência
onde não há decência,
e que mostre alguma beleza
perdida na frieza.
Não tem dono essa poesia,
compõe o anonimato de mãos
tremulantes de desilusão,
de bravura decidida
que guarda lembranças de vida.
Essa poesia não tem preço,
páginas rabiscadas
variadas
variantes
incessante composição
tremida, amedrontada, incompleta.
Não tem preço essa poesia,
vale a vida de cada um
custa a força das mãos
que no meio à anônimas ações
constroem fortalezas.
Essa poesia não é de ninguém e é de todos,
é a representação trêmula do mundo
que se faz desalinhada,
descontrolada,
desnivelada.
De quem é?
Quanto vale?
Para quem?
Poesia...poesia...
Este é o mundo
e não a poesia!
Expediente
Coordenação de Ciências Humanas
e suas Tecnologias/ CEFET-GO
cch@cefetgo.br
www.cefetgo.br/cienciashumanas
Coordenador - Walmir Barbosa
Ponto de Vista n°6 - março de 2004
Diagramação e Edição - Douglas A. R. Prado
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