Boletim Informativo da Coordenação de Ciências Humanas do CEFET-GO

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Nº 6 - Março de 2004
 

Neste número:

 

Editorial

Novas perspectivas da comunicação nas redes digitais

Atos subversivos

Lendo o mundo

O Brasil e as fontes de energia

De quem é a poesia?

 

Editorial

Acompanhando a retomada das atividades acadêmicas do CEFET-GO, estamos lançando mais um número do Boletim Informativo Humanidades em Foco. O tema central deste número é a liberdade.
A Liberdade não pode ser compreendida de um ponto de vista superficial. No justo momento em que o voyeurismo, a banalidade, o individualismo e a competição são consagrados por meio de uma pedagogia de massificação e de decomposição de valores sociais fundados na ética e na justiça -a exemplo de programas reality shows como o Big Brother Brasil-, é necessário ultrapassar os estreitos limites a que o senso comum, sob a concepção liberal de mundo, submeteu a liberdade.
Liberdade somente pode ser entendida (e conquistada) enquanto capacidade de leitura (crítica) da realidade, de contestação de uma ordem (injusta) estabelecida e de auto determinação dos sujeitos sociais (individuais e coletivos). A consciência de que estamos subjugados a um sistema que nos faz prisioneiros, não traduz propriamente o que é a liberdade, mas é sem dúvida um momento importante da caminhada em sua conquista.
Estas referências são necessárias para apreendermos e transformarmos micro e macro estruturas sociais, a exemplo das relações de poder da sociedade brasileira em todas as suas dimensões, até mesmo numa instituição de ensino como o CEFET-GO. “Navegar é preciso”, sempre...!

Novas Perspectivas da Comunicação nas Redes Digitais*

Profª. Gilda Guimarães

Em palestra promovida pela revista eletrônica Humanidades em Foco, o professor Dr Júlio Afonso, apresentou à comunidade do CEFET-GO uma síntese dos seus estudos e pesquisas desenvolvidos nos anos noventa, como parte do seu trabalho de doutoramento. O pesquisador ressaltou que em 1995, período de realização da pesquisa, vivíamos o boom da informática e o auge da crença nas suas possibilidades de democratização da comunicação, através das novas tecnologias das redes digitais.
Esse otimismo acrítico, que vê na tecnologia possibilidades de uma efetiva democratização da informação e do conhecimento, apóia-se na suposta autonomia da técnica e na promessa apressada do poder da tecnologia transformar a sociedade. Passado esse momento ufanista questiona-se o caráter, o conteúdo e a real interação do usuário na rede.
A partir de 1998 a Internet entra na sua fase comercial no Brasil, submetendo-se à lógica da audiência e reposicionando a mídia enquanto mercadoria. A submissão da rede à lógica da audiência obedece à dinâmica do mercado e determina o nivelamento por baixo do conteúdo veiculado nas informações, o que compromete e empobrece a capacidade de reflexão e do verdadeiro debate.
A propaganda que invade a rede e a fragmentação das informações, determinada pelo achatamento do conteúdo destas, pela focalização na linguagem de inter-texto, pela prioridade do jogo de imagens e movimentos, pela velocidade com que se intercalam as imagens e notícias, levam à espetacularização do conhecimento e da informação. Essa espetacularização promove apenas a “sensação” de conhecer e interagir, daí a expressão navegar, surfar, que sugere permanecer na superfície.
Outro aspecto abordado diz respeito à acessibilidade e a possibilidade de sociabilidade em termos globais, através do contato com o outro, com as diferenças. Segundo o pesquisador a sociabilidade na Internet tende a aproximar os indivíduos a partir do que previamente se buscou. Dessa forma, o contato com o outro, que no final identifica-se com você mesmo, revela uma sociabilidade narcisa e, ao mesmo tempo, fantasmagórica já que não se sabe exatamente se o outro é o que afirma ser (sexo, idade, origem, etc.). A caracterização dos mundos virtuais revela, ainda, a tendência à deserção do mundo real, fenomênico, o que faz com que a leitura crítica dos meios de comunicação seja necessária nas escolas desde cedo.

*(palestra proferida pelo Professor Júlio Afonso, Doutor em Comunicação pela UFRJ, em 26/11/2003 a convite da revista eletrônica Humanidades em Foco.)

 

Atos subversivos

Profª. Raquel Ribeiro

Subversão – ação de subverter (se) / rebeldia, insurreição
Subverter – destruir, arruinar/desorganizar/perverter/revolucionar/revolver, voltar de baixo para cima.*


“Os primeiros meses pós-golpe ficaram marcados pela detenção de aproximadamente 50 mil pessoas. Os militares realizaram uma “operação pente-fino”: de rua em rua, de casa em casa, procuravam suspeitos, livros, documentos, qualquer coisa que ligasse os acusados ao governo anterior ou à “subversão”. Não se prendiam “culpados”, mas todos os que não podiam provar inocência. Poucos líderes sindicais e estudantis escaparam da repressão.**
A palavra subversão foi amplamente utilizada e comentada dos anos 60 aos 80, durante o regime militar no Brasil e também nos outros países da América Latina, e mesmo antes dos anos 60, na referência aos militantes dos movimentos sindicais ou do movimento comunista em suas diversas facções. O certo é que em alguns momentos da história esta palavra ganhou tamanha força que se tornou tão ameaçadora quanto o “bicho-papão”, aliás, em suas essências até se confundiam.
Quem eram os subversivos? Aqueles que acreditavam em igualdade de direitos (não a igualdade dos discursos liberais), em melhor distribuição de rendas e riquezas, em liberdade de escolha e expressão, em ter o direito de exercer uma cidadania participativa e etc., etc., etc... De pervertido parece não ter nada nestes princípios. De destruidor? Sim. Ameaçavam acabar com uma ordem sócio-econômica que foi se tornando cada vez mais excludente, cruel e desumana. Se tomarmos o termo pela lógica da definição, nada parece mais contraditório do que o receio de desorganizar uma ordem que em si já traz tantas desordens: fome, pobreza, desemprego, abandono, exclusão.
A idéia de uma revolução popular armada causava tamanho terror aos dirigentes políticos e aos grupos burgueses dominantes, que usavam de qualquer método para coibí-la, até mesmo as mais cruéis e brutais torturas. Mas mesmo para aqueles jovens rebeldes, não seria fácil realizar uma revolução com ideal de igualdade, pois esta implica no fim de qualquer prática autoritária. Uma revolução assim não é apenas um ato de rebeldia manifesta contra o “sistema” ou uma insurreição, um levante no qual o poder é tomado por um grupo em detrimento de outro, mas sim uma profunda transformação de práticas sociais, políticas, econômicas e mais ainda, dos valores humanos.
Dos anos 60 aos 80, a dialética da subversão desconstruiu a intenção de justiça social, construiu um modelo de democracia fundamentada no silêncio, na submissão e na omissão e fortaleceu ainda mais a ditadura do capital. Enquanto conceitos como subversão e autoritarismo estiverem sendo mal interpretados ou desconhecidos em suas essências, um pequeno grupo continuará mantendo o domínio sobre as maiorias utilizando justificativas inconsistentes e alienantes e práticas autoritárias serão mantidas – mesmo que com roupagens diferentes. Tais práticas são reforçadas por meio da apropriação indevida do termo democracia e da desconsideração da ampla e complexa diversidade de idéias, costumes, identidades e culturas, reforçando sempre a exclusão.
Então o que aconteceu com as pessoas que personificavam a subversão naqueles tempos que parecem ter emudecido hoje? E hoje não há nada com o que subverter? E o que aconteceram com os projetos de mudanças econômicas e sociais? Realmente parece que o mito da plena liberdade venceu a intenção da luta e o conformismo refletido em uma ordem em que há´uma diversificação partidária no poder (esquerdas, centros, direitas) mistifica a luta social, reforçando a idéia de que hoje a participação dos cidadãos nestas lutas e conquistas está completa.
Talvez este fosse o momento de retomar o termo e praticar atos subversivos contra valores que se enraizaram na desonestidade, no autoritarismo, na corrupção e na falta de ética.

*AURORA, Antônio Soares. Minidicionário Soares Amora da língua portuguesa. 6.ed. São Paulo, Saraiva, 1999
** CHAVANATO, Júlio José. O golpe de 64 e a ditadora militar. 3. Ed. São Paulo, Moderna, 1994. Coleção Polêmica.

 

Lendo o mundo

Douglas A. R. Prado

Você sabe ler? Espera aí, deve estar pensando que a resposta é muito óbvia, é claro que você sabe ler, não é mesmo? Se não soubesse não estaria lendo este texto! Mas afinal, o que é leitura?
O ato de ler está usualmente relacionado com a escrita, mas existem outros tipos de leitura, basta darmos atenção ao que acontece a nossa volta e conseguir ligar esses sinais a uma experiência, a uma fantasia ou a uma necessidade nossa. Em primeiro lugar, temos que compreender que o significado de leitura vai além do simples conceito de decifrar sinais gráficos. O ato de ler é uma atividade que significa interiorizar uma informação que é exterior ao leitor, por exemplo, quando assistimos a um filme estamos lendo, isto porque estamos decodificando uma mensagem que nos é transmitida, e codificando-a novamente de forma a assimilarmos e compararmos com conceitos e informações já apreendidas anteriormente. Outro significado de leitura pode ser compreender e interpretar textos. De maneira simplificada, texto seria um conjunto de informações que percebemos de três maneiras: sensorialmente, emocionalmente e racionalmente.
Desde o nosso nascimento começamos a compreender e a dar sentido ao que nos cerca, isto porque aprendemos por meio das experiências de confronto com nós mesmos e com o mundo. Aprendemos a ler lendo e vivendo, a partir do contexto social ao qual estamos inseridos. O importante é sabermos que o ato de ler sempre está ligado com a interação entre o contexto social - que é contraditório e conflituoso socialmente – e o indivíduo.
O nível de domínio da leitura determina o tipo de leitor que você é, e se sabe realmente ler. Segundo Nelly Novaes Coelho, o leitor iniciante é aquele que está em fase de aprendizagem da leitura, período este em que ocorre o processo de sociabilização e de racionalização da realidade com a qual a criança entra em contato. O leitor em processo tem o domínio relativo do mecanismo da leitura e da agudização do interesse pelo conhecimento das coisas, com o pensamento lógico se organizando em formas concretas que permitem as operações mentais. Já o leitor fluente se caracteriza pela consolidação do domínio da leitura e da compreensão do mundo expresso por meio do texto, ou da realidade que é apresentada ao indivíduo. Finalmente, o leitor crítico é aquele que tem o total domínio da leitura, incluindo a da linguagem escrita, além de ter a capacidade de reflexão em maior profundidade, o que lhe permite ir mais fundo no texto e descobrir a visão de mundo ali presente, compreendendo as ideologias e as motivações sociais que levaram à construção do discurso.
Sabe-se que o conceito de leitura em nível do senso comum está ligado à separação entre o trabalho intelectual e o trabalho manual, em que apenas os “letrados”, aqueles que supostamente seriam capazes de ler livros, seriam os únicos que teriam o “direito” de dar sentido ao mundo, restando aos demais a submissão. Muitos educadores apregoam a necessidade da constituição do “hábito de ler”, mas os livros escolares geralmente transmitem uma visão de mundo repleta de (pré)-conceitos sociais (ou falsa consciência), dando ao conceito de leitura um sentido restrito e puramente formal.
Ampliar a noção de leitura pressupõe transformações na visão de mundo em geral e na cultura em particular, isto porque ela é um processo de compreensão de expressões formais e simbólicas, que geralmente estão em um contexto sócio-cultural muito amplo, indo para além daquele em que o leitor vive imediatamente. A função do educador é o de ampliar a capacidade de leitura crítica de seus educandos, criando condições para que os mesmos realizem aprendizagens a partir de necessidades e fantasias individuais e coletivas, sob as demandas e exigências que a realidade lhes apresenta, permitindo dessa forma uma ação transformadora sobre o mundo. Assim, poderá ser possível pensamento e ação livres de idéias pré concebidas e “engessadas”.
Somente por meio de uma leitura crítico-transformadora do mundo poderemos alcançar liberdade, visto que a mesma não pode ser alcançada fora de um processo de desalienação individual e coletiva!

 

O Brasil e as Fontes de Energia

Prof. Boanerges Candido Da Silva

O panorama energético mundial é preocupante. O consumo cada vez maior e as reservas se esgotando ao longo dos anos, mostram-nos a necessidade de se buscar uma solução. Os custos da energia são cada vez maiores, onerando os transportes e o preço final dos produtos. Os avanços técnicos e o aumento da escala não foram capazes de reduzir os preços dos produtos energéticos, nem de criar fontes alternativas de energia.
A pergunta que se faz é como evitar uma crise de energia, que poderia inviabilizar o modelo atual de vida, principalmente das sociedades ocidentais.
No Brasil o principal meio de transporte é o rodoviário, responsável, por cerca de 80% dos deslocamentos de cargos. Esta situação coloca o país numa posição de dependência em relação ao petróleo, fonte de energia que, segundo os especialistas, é a que se encontra mais próxima do fim, os atuais estoques seriam extinto em cerca de 50 anos.
A negligência com o desenvolvimento das hidrovias, uma alternativa viável de transporte, é tanta, que algumas rodovias federais foram construídos paralelas a importantes cursos d’água, como a transamasônica.
Com as ferrovias a situação não é diferente. Desde 1956, com a posse de Juscelino Kubistchek na presidência do Brasil, optou-se pelo transporte rodoviário, priorizando a indústria automobilística, como força motora do desenvolvimento nacional. Esta situação levou ao abandono das ferrovias que praticamente desapareceram e as poucas em operação, são obsoletas.
Com os transportes urbanos houve o mesmo descaso, saímos dos bondes, dos ônibus elétricos e dos trens urbanos e suburbanos, para os veículos movidos a óleo diesel, que apresentavam serviços de baixa qualidade e eficiência, levando os proprietários de automóveis, optassem por este meio extremamente individualista.
O modelo brasileiro nos leva a refletir e a nos preocupar com o futuro. O que será do nosso trans porte? Como nos livraremos desta dependência dos combustíveis fósseis? Será possível em um curto espaço de tempo criarmos uma alternativa?
Pelo menos tivemos uma boa experiência, mas que já foi praticamente abandonada, o PROÁLCOOL, um combustível renovável e com amplas possibilidades de sucesso nos transportes individuais. Outra tentativa é o consumo de gás natural, que vem sendo implantado nos Estado do Rio de Janeiro e São Paulo com bons resultados.
Devemos ficar atentos e nos preocuparmos, pois ainda não há uma alternativa testada e aprovada, e o nosso álcool e o nosso gás podem ser a boa notícia que tanto nos agradará.


De quem é a poesia?

Profª. Raquel Ribeiro

Essa poesia não tem dono.
Composições de letras em uma mão trêmula
que não garante mais nenhuma firmeza
ou ao menos certeza.

Pode ser que pareça
que algumas letras
ainda componham coerência
onde não há decência,
e que mostre alguma beleza
perdida na frieza.

Não tem dono essa poesia,
compõe o anonimato de mãos
tremulantes de desilusão,
de bravura decidida
que guarda lembranças de vida.

Essa poesia não tem preço,
páginas rabiscadas
variadas
variantes
incessante composição
tremida, amedrontada, incompleta.

Não tem preço essa poesia,
vale a vida de cada um
custa a força das mãos
que no meio à anônimas ações
constroem fortalezas.

Essa poesia não é de ninguém e é de todos,
é a representação trêmula do mundo
que se faz desalinhada,
descontrolada,
desnivelada.

De quem é?
Quanto vale?
Para quem?
Poesia...poesia...
Este é o mundo
e não a poesia!

 

Expediente


Coordenação de Ciências Humanas
e suas Tecnologias/ CEFET-GO
cch@cefetgo.br
www.cefetgo.br/cienciashumanas

Coordenador - Walmir Barbosa
Ponto de Vista n°6 - março de 2004
Diagramação e Edição - Douglas A. R. Prado